• Raquel Cantarelli

A Morte

Atualizado: 15 de Jul de 2019



Haverá de ser numa madrugada fria,

Lenta e torta, em que me abandonou à própria sorte.

Em que eu já quase adormecendo,

Ouço o chamado de alguém que bate à minha porta.

Tal qual o sopro de uma vida,

Agora abro e encontro a morte.

Ah, como me lembro bem, era 31 de outubro,

E meus olhos morrendo, quase turvos,

Urdiam e clamavam a própria sorte.

Como eu queria, mais uma madrugada,

Entre tinta, café e livros,

Esquecer que chegara a minha hora,

A hora finda, a irmã amiga, a estranha morte.

Mas não me entreguei de pronto,

Queria o oxigênio de mais uma respiração,

E mesmo fingindo a força que não tinha,

Ouvi o som de meu fraco coração.

Você, a morte me encarou e sorriu,

E lhe perguntei, incrédula e descontente,

É só isso, dona morte? Ai, ai!

Sim! — me respondeu, e nada mais.

Então gritei alto e forte, já não mais tão descontente,

Dona morte! ou senhor, não sei ao certo,

Eu já ia me entregando, quando a vi chegando,

Por que não me concedes mais um dia?

Preciso despedir-me de meus filhos,

Meu café, meu amor e meus livros.

Não há tempo. — disse-me apenas a desgraçada morte,

Não merecestes essa sorte!

Abriu-se a minha frente um portal,

E à treva medonha me encarando,

Estou perdida! — gritei: — arrependo-me!

Não me leve agora dona morte.

Não há tempo! A noite é infinita

E tua paz será profunda e maldita;

Entregue-se eu te ordeno! — siga-me!

Eu sou a morte!

Assisti a meu próprio desterro,

O momento em que minha alma se esvaiu,

Fiquei tal qual ervilha torta, gelatina mole,

Carne pútrida e fria.

O som do inferno me chamando,

O fogo ardendo e marcando com sinais,

O caminho do umbral e da penumbra,

O tapete negro do caminho infernal.

E a morte, estendendo-me à mão,

Me arrastando feito verme,

Na carcaça de meu mal.

Abri então uma réstia em minha memória,

Dos tempos vívidos, quando ri de meus ancestrais,

E como orvalho sutil e lento,

Senti o perfume das flores,

Sobre meu caixão de espirais.

Então, já estou morta? — perguntei,

E por que então ainda consciente?

É tortura? Ritual? Por que não me levas logo,

Às trevas infernais?

Porque és uma desvalida,

Não se conformas com a vida e,

Nunca te aprazou-se da sua vida.

Não és nobre e nem ousada,

Não há fama e nem feridas.

Não há morte e não há vida.

Parei para ouvir esse raro momento,

De seu falar tão claro,

Mesmo que não quisesse acreditar,

Na morte de meus ais.

Mas devo confessar que pressenti,

Uma mínima chance de que ao menos alguém,

Soubesse do que vi.

E se apenas um ler o que escrevi,

Morte, terás me feito tão feliz,

Que vou contigo para o além,

E já não me apiedo, e não reclamo, nunca mais.

Mas a morte sobre a foice, deixou cair o seu capuz,

E revelou-se: Era EU!

Que sem alma, estava ali,

Sem ar, sem movimento, sem razão,

Consciência e pensamento;

Apenas um corpo inerte e nada mais.

Não havia mais filhos, amor, café e livros,

Apenas o silêncio de minha voz,

Que nada mais dizia, nada mais.

Porque mesmo estando viva,

Eu era tão somente uma vírgula,

Do que sonhei que seria um dia...


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Raquel Cantarelli

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