• Raquel Cantarelli

A Noite Eterna

Um conto de terror ambientado nas ruas de Paraty

A noite eterna começou a me envolver, não pela tonalidade da luz e das sombras que saíam por trás das casas e becos pelos quais eu caminhava, sob as pedras, nas ruas de Paraty. Observei que, embora as sombras continuassem para além da projeção de seu objeto de origem, não me sugeria no início que fosse algo anormal, muito menos sobrenatural. A chuva começou a cair, e não demorou para que se transformasse numa tempestade. As ruas ficaram vazias tão repentinamente que não encontrei uma porta aberta para me abrigar e, para meu espanto, nenhuma alma viva com a qual pudesse dividir meu desespero.


À minha volta, repentinamente tudo era horror, trevas profundas e um negro abrasador e deserto como o ébano. E foi nesse momento que um terror supersticioso começou a invadir meus pensamentos e dominar minha consciência, carregando meu espírito para as profundezas do medo.


Abandonei todas as precauções para caminhar por aquelas ruas estreitas e vazias de pedra e, mais do que inutilmente, tentei correr, e tombo após tombo, com mãos e joelhos já em carne viva, dei-me conta de que estava sozinha na imensidão daquela noite eterna.


Não consegui de forma alguma calcular o tempo em que caminhei perdida por aquelas ruas de pedra, no entanto, estava bastante consciente de que por várias vezes passei pelos mesmos lugares, como se alguma força sobrenatural estivesse me atrapalhando os sentidos e dominando meus passos. Mesmo assim, a cada instante em que eu imaginava que poderia ser o último de minha vida, não havia nada físico além da tempestade que pudesse comprovar o sentimento que crescia em minhas entranhas, a ponto de esmagar meu coração.


Então, a primeira onda trouxe a água do mar pelos túneis subterrâneos do centro histórico de Paraty e os tampões dos bueiros começaram a saltar à minha frente, como se obedecessem a algum comando cadenciado e ritualístico, e vinham em minha direção, como se tentassem me atingir.


Desviei-me como pude dos tampões de ferro e comecei a imaginar que uma inundação estava chegando, pelo fato de o mar estar subindo com a maré. Fosse como fosse, eu não deixava de me desesperar e de sentir medo da própria esperança e me preparei resignadamente para a morte que acreditei não pudesse mais ser adiada, já que dos bueiros a água saltava com tamanha força que se assemelhavam a gêiseres, em força e fúria.


Algumas vezes, ao tentar desviar dos jatos de água, sentia que alguma coisa lodosa e escorregadia tocava minha pele. Perdi a respiração por várias vezes e fiquei tão atordoada com a velocidade da água que passei a acreditar que estava sendo vítima de um verdadeiro inferno aquático que vinha pelas tubulações submersas nas ruas de Paraty.


Sem enxergar mais que um palmo à minha frente, eu me encontrava no meio de um desses abismos de medo, quando ouvi um grito que rompeu os portões do horror naquela noite eterna. E eu o vi!


— Meu Deus! — gritei angustiada aos meus próprios ouvidos. — Deus do Céu! Deus Todo Poderoso! Olhe por mim!


Enquanto gritava, eu recebia uma réstia de luz mortal e sombria de tonalidade a vermelhada que vinha diretamente daquela criatura diante de mim e que estava mergulhada no meio da água. Lançava um brilho descomunal e arroxeado sobre as paredes das casas coloniais, enquanto erguia os olhos e tentava me alcançar com a visão.


Olhei direto para ela e a observei como a um espetáculo de terror que me fez congelar o sangue nas veias e urinar na roupa. A criatura se erguia cada vez mais e pendia-se na minha direção. Sua altura e deformidades eram igualmente hediondas e sobrenaturais, e deveria pesar ao menos umas duas toneladas. Apesar de ter a leve semelhança de um polvo, ela tinha mais de dez vezes o tamanho e sua aparência grotesca excedia a de qualquer animal que se tivesse conhecimento, ao menos até aquele dia.


Sua pele escamosa era de um negro profundo, e um único olho pendia para fora do que imaginei ser a sua cabeça. Para meu maior espanto, vi saírem pequenos monstrinhos iguais ao que se erguia à minha frente, o que me encheu de horror e me fez perder os sentidos de vez.


A despeito daquele monstro sobrenatural e do incontrolável furacão em que vivi nas ruas de Paraty, não encontro explicação, já que não fiz uso de drogas, nem de álcool e muito menos de alguma comida diferente. Tudo o que fiz — e isso em abundância — foi manter meu incontrolável hábito de café e leituras de Lovecraft.


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Raquel Cantarelli

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