• Raquel Cantarelli

O chamado à meia-noite



Em toda Étherys, as histórias sobre abominações e encantamentos eram bastante comuns.

E no condado de Terryor não era diferente.


As histórias que mais se ouviam ali nos últimos tempos eram sobre os encantamentos de transfiguração de etheryanos em soldados para o exército de Medlor. Ninguém em sã consciência se arriscava em andar sozinho pelos condados, temendo ser transformados.

Era perigoso durante o dia e durante a noite, então, era até mesmo proibido.


Mas é claro que existiam aqueles que não acreditavam nisso, até porque era uma história contada há tanto tempo que já estava ficando desacreditada.


Alguns rebeldes chegavam a dizer que não passava de histórias inventadas pelo próprio rei Emanuel, a fim de manter o povo de Étherys à mercê de sua lei.


Certa sexta-feira à noite, os amigos Vitório Estipyus, o contemplador de lumens, e Vitor Ferderer, o cantador, decidiram passar um trote na novata da Escola do Herói Aprendiz, a recém-chegada à Étherys, Gabrielle Acquamor.


Era uma brincadeira muito comum na Escola, principalmente dos veteranos para com os novatos.


Os dois amigos pegaram a lista dos convocados para as aulas de visualização criativa com a professora Irenys Lentlas e trocaram com a relação de alunos que deveriam fazer aula de portais do tempo com o professor Aurélyus Néquilus. Com essa troca, Gabrielle foi parar no seu segundo dia de aula na Escola do Herói aprendiz, na aula do sétimo nível de consciência.


A brincadeira deveria ser realmente muito hilária, pois a garota era uma recém-chegada e ainda estava no primeiro nível, e quando ela chegou à sala de aula naquela manhã de sábado, todos voltaram seus olhares para ela.


— O que está fazendo aqui, Gabrielle?

— Vim para a aula, Professor, meu nome está na lista desta sala e neste horário.


O professor saiu para conferir a lista e, de fato, o nome dela estava no final da lista, mas havia também uma anotação bastante incomum, diferente de tudo o que o professor já vira em sua longa estadia na Escola.


"Se até à meia-noite da próxima sexta-feira, os dois rapazes que pregaram essa peça na novata não se entregarem ao diretor da Escola, seu castigo será a transmutação em soldados para meu exército”.


A notícia se espalhou por toda a escola e provocou grande alvoroço. Não demorou muito para que chegasse aos ouvidos de Vitório e Vítor.


Vítor estava com medo, muito medo, ele se impressionava com mais facilidade que Vitório. Este último também estava com medo, mas disfarçava bem.


Passados dois dias, o diretor chamou os dois no pátio da escola e, assim que chegaram lá, um portal se abriu na sua frente e eles foram parar num deserto.


A princípio não havia nada lá. Total silêncio e aos poucos eles foram ficando cada vez mais apavorados.


Até que, ao longe, atrás de um monte, um barulho estranho brotou, um barulho tão forte e tão assustador que petrificou os dois garotos, um barulho de alguma coisa arrastando correntes e soltando uivos guturais como jamais tinham sequer ouvido falar.


Com certeza era o pior som que já tinham ouvido em toda vida.


Não demorou nada e Vítor começou a chorar, já Vitório conseguiu se segurar, pelo menos por um tempo, mas suas calças estavam molhadas.


Aquilo tudo os deixou muito apavorados e arrependidos.


Suplicaram a Morphys para que os livrasse da transmutação de Medlor. Eles não queriam terminar suas breves vidas como soldados do Senhor do Medo.


O tempo escureceu de repente e, no meio da escuridão, não se ouvia nada. Silêncio.


Até que uma voz suave falou:


— Ele me enviou!


Os meninos se entreolharam, conheciam aquela voz.


Então ela surgiu de trás do monte, gargalhando juntamente com o professor Aurélyus.

Sim, com certeza ele a enviara. Só podia ser: afinal, ela era a "enviada de Morphys”.

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Raquel Cantarelli

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