• Raquel Cantarelli

Entrevista com Stephen King

Ótima conversa com o autor publicada no portal The Guardian, em setembro de 2019


Nascido no Maine em 1947, Stephen King escreveu seu primeiro romance publicado, “Carrie”, em 1974 e vem há meio século documentando os monstros e heróis folclóricos das pequenas cidades americanas. Sua galeria de personagens marcantes varia de palhaços assassinos e carros demoníacos a fãs psicóticos e políticos populistas descontrolados.


Seus livros amados incluem A Dança da Morte, It, Zona Morta e Pet Sematary. O último romance de King, O Instituto, gira em torno de um campo de treinamento totalitário para crianças telecinéticas. As crianças fazem check-in, mas não o check-out.


Vamos às perguntas!


“Carrie” foi publicado no contexto de Watergate, Vietnã e do seqüestro de Patty Hearst. A América é um lugar mais ou menos assustador para escrever agora?


O mundo é um lugar assustador, não apenas a América. Estamos na casa mal assombrada – no trem fantasma, se você preferir – por toda a vida. Os sustos vêm e vão, mas todo mundo gosta de monstros de mentira para substituir os reais.


O Instituto é sobre um campo de concentração para crianças, composto por factotums implacáveis. Até que ponto as políticas de imigração de Trump afetaram o livro?


As políticas de imigração de Trump não impactaram o livro, porque ele foi escrito antes desse incompetente se tornar presidente. As crianças são presas e escravizadas em todo o mundo. Minha esperança é que as pessoas que lerem O Instituto encontrarão uma ressonância com as políticas cruéis e raciais deste governo.


Apesar de todos os terrores em seu trabalho, há uma fé subjacente na decência humana básica. Isso sugere que você acha que a maioria das pessoas é basicamente boa.


Sim, a maioria das pessoas é boa. Mais pessoas estão ansiosas para interromper um ataque terrorista do que iniciar um. Elas simplesmente não saem nas notícias.


Você começou sua carreira sendo considerado no meio literário um vendedor ambulante de horror barato. Agora você é um tesouro nacional elogiado. Como é ser respeitável?


É bom ser pelo menos semi-respeitável. Eu já vivi mais do que a maioria dos meus críticos mais virulentos. É um prazer dizer isso. Isso faz de mim uma pessoa má?


Também não é em parte porque a fronteira entre ficção literária e ficção de gênero se tornou mais porosa? A antiga distinção alta / baixa não existe da mesma maneira.


Bem, ainda há uma linha estranha – para mim, pelo menos – e totalmente subjetiva entre alta cultura e baixa. Uma canção de Rigoletto, “La donna é Mobile”, por exemplo, é alta cultura. Sympathy for the Devil, dos Stones, é baixa. Os dois são legais, então vai entender.


Ouvi dizer que você gosta de escrever ouvindo música alta. Isso não é um pouco dispersivo?


Estou ouvindo Fine Young Cannibals (agora). Logo será seguido por Danny and the Juniors and the Animals. Eu amo rock – quanto mais alto melhor.


Mas a música deixa uma marca no tom ou no ritmo de um livro? Um capítulo escrito enquanto ouve Animals, digamos, difere de um capítulo escrito sob a influência dos Ramones?


Às vezes, a música que estou ouvindo pode afetar a escolha da palavra ou causar uma nova linha, mas nunca afeta o estilo.


Você é espantosamente prolífico. Qual é a sua opinião sobre os romancistas que passam anos elaborando e reescrevendo um romance? Inveja o rigor deles? Acha exasperante?


Alguns escritores levam anos; James Patterson leva um fim de semana. Todo escritor é diferente. Eu sinto que um primeiro rascunho deve levar cerca de quatro meses, mas isso sou eu. E revejo obsessivamente o meu trabalho. Outra coisa: a vida criativa é absurdamente curta. Eu quero me desdobrar o máximo que puder.


Você já se forçou a ir mais devagar?


Deliberadamente ir mais devagar? Não, nunca. Eu já escrevi à mão (O Apanhador de Sonhos), mas cutucar e polir obsessivamente? Não. Você continua pegando uma crosta, vai fazer sangrar em vez de curar.


Você disse que seus personagens às vezes falam na sua cabeça até o ponto em que eles apagam o mundo real. Isso faz escrever ficção parecer um primo próximo de uma doença mental...


Não acho que escrever seja uma doença mental, mas quando estou trabalhando e indo muito bem, o tempo e o mundo real desaparecem.


Se esse é o estado ideal de graça, às vezes é difícil desistir? Você já se viu assombrado por livros ou personagens seus já “aposentados”?


Às vezes, personagens como Holly Gibney, dos livros de Mr Mercedes e Outsider, choram para voltar – ou Roland de A Queda de Gilead –, mas são as exceções.


Você colaborou com o escritor Peter Straub (nos romances O Talismã e Black House) e com seus filhos Owen e Joe. Existe alguém com quem você gostaria de escrever um romance?


Adorei colaborar com meus filhos e com Peter Straub, e espero fazê-lo novamente. Eu adoraria colaborar com Colson Whitehead, Michael Robotham, Linwood Barclay, Alex Marwood, Tana French. Acho que não há tempo, mas essas seriam misturas legais. O ideal é curtir com alguém de forma tão plena, que vocês criam uma terceira voz.


O presidente ordena que todos os livros na América sejam queimados. Você tem tempo para salvar três de seus próprios romances. Quais seriam?


Quais livros meus eu guardaria? Pergunta besta, mas vou jogar. Love - A história de Lisey, A Dança da Morte e Louca Obsessão.



Leia aqui a entrevista original completa.



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Raquel Cantarelli

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