• Raquel Cantarelli

A Maldição do Pergaminho


Quando, por uma lei das supremas potências de Morphys, Verena Acquamor se apresenta diante dele, entediada por não poder conceber um filho, Morphys fica estarrecido e se enche de fúria. Mas como o desafio daquela mulher foi muito grande e não bastou o susto de quase perder a vida contra as águas do Rio dos Mortos — já que ela continuou praguejando contra ele — sua resposta veio na forma de um milagre.


Morphys brincou com ela e lhe concedeu seu desejo, muito embora sua fraqueza o tenha feito desviar sua atenção da dupla fenda que se abriu e, com isso, dois milagres foram concedidos. O primeiro em Etherys, cujo nome ele batizou de Gabryelle Acquamor, a enviada de Morphys, e o segundo, na Terra, cujo nome foi escolhido para ser a enviada de Deus, Gabriela Cantamor.


“Ah! Se Verena soubesse o que havia gerado, talvez não tivesse corrido tamanho risco, já que os pergaminhos estavam proibidos em Étherys. Mas ela não conseguia mais dominar a solidão e se deixou levar por seu sonho de ser mãe. Concebeu a graça e a força, mas não sabia que, de seu maior sonho viria a sua maior desgraça.


Pois jamais lhe ocorreu que dentre todos os novos etheryanos que haviam nascido, naquele tempo, justamente sua filha Gabryelle teria que passar por testes tão pesados, e para seu desgosto e de seu esposo, viu sua filha sendo pisoteada por uma manada de búfalos, ser atacada por uma leoa faminta e ser jogada às chamas ardentes do fogo de Eghon, o Pensador de Aquor ele que mais parecia um mostro possuído pelo ódio e que afrontava Morphys, duvidando de seus desígnios.


Cegos ficaram Verena, Acácio e o próprio Morphys, pois não viram a afronta que estavam sofrendo, dentro de um plano asqueroso e vil de vingança contra a eleita e a salvadora de todos os etheryanos; uma vez que este mau filho de Etherys plantou seu veneno de ponta a ponta e teceu uma teia tão perfeita que, mesmo estando aos olhos de todos, não se podia ver.


Este monstro vingativo ruminou todo seu ódio e envenenou a si próprio, pois este é o principal efeito daqueles que se deixam encarnar pelo pecado da inveja e da maldade. E como não entendia dos desígnios de Morphys, ele colapsou sua própria onda e, quando seu plano foi contemplado, ele caiu, vítima de seus próprios delitos.


Sob o feixe de lumens de um guardião errante, Sécryfus, porém, Gabryelle Acquamor teve sua igual concebida na Terra e quando ela foi enviada para o deserto das almas perdidas, Medlor começou sua semeadura do medo no coração dos etheryanos, sem saber que a enviada de Morphys não tardaria a chegar, vindo de um lugar onde não existe o éter, mas onde o sonho pode ser encarnado.


À sombra das nuvens que conversavam com Gabriela e dos ventos que a desafiavam em seus primeiros voos noturnos, a menina tão esperada no coração do Brasil não se sentia em casa; seu espírito livre e seus cabelos e poderes tão diferentes e únicos a faziam chorar noites e noites por não entender por que seu coração não pertencia àquele lugar.


Seus pais e irmãos a amavam muito e por causa desse amor a protegeram e a observavam o tempo todo, o que lhe roubava a paz, e em seu primeiro ato de rebeldia, quando ensinou sua irmã Juliana a voar, os seus poderes libertaram o medo que nasceu junto com a fera que trazia em seu infinito. Sua irmã morreu, pois só podia voar quando embarcava nas asas da irmã. E só restou a dor e a solidão.


Como ela se arrependeu de ter plantado sonhos, perambulou noites e noites junto com sua mãe, que aos gritos se entregou ao escuro da depressão. Então veio a noite mais escura e, antes do amanhecer, quando a escuridão fica mais profunda, um vórtice de luz se abriu no firmamento e um arco-íris de cores vibrantes girava ao redor do telhado, bem como um som metálico pôde ser ouvido.


Abriu-se o portal e Sécryfus foi o primeiro a atravessá-lo, seguido por Aurélyus Néquilus. De joelho, a menina-moça baixou sua cabeça, aquelas figuras estranhas para todos da Terra lhe pareciam tão familiares, que de imediato pensou "finalmente”.


Não precisava mais fantasiar: pousou sua mão sobre o escudo de Sécryfus e ele brilhou, sua imagem refletida era de Gabryelle Acquamor, e ela soube que voltaria para casa, ela não tinha ideia de como eles haviam chegado até ela, mas do jeito que seu peito palpitava e estremecia, soube que eles abriram o caminho até seu coração, que clamou por eles por tanto tempo. E foi tão forte que rompeu a pele entre a Terra e Etherys sem dó nem compaixão.


No céu, antes do amanhecer ela pôde ver um grande vórtice se formando, cujas primeiras faíscas pareciam ter saído do escudo de Sécryfus. Não houve muito tempo para as despedidas de sua família terrena, pois o fulgurante brilho sobre sua casa já chamava atenção dos primeiros habitantes de Nova Xavantina.


Gabriela prometeu reservar um lugar especial em seu coração para aqueles que tanto amou e que lhe amaram e convidou seus novos amigos para seguir rumo ao tão esperado mundo desconhecido que por tanto tempo chamou-a.


Sabia que levaria com ela a dor e a dádiva, pois a seus pés o céu e o inferno da Terra e de Étherys estariam plantados. Era seu destino ou seu dilema, mas ela se forçaria a lhes impor suas próprias vontades e seus sonhos. O que poderia ser mais pesado do que carregar a morte nos ombros?


Não estava em busca de jóias, pérolas do mar ou raros diamantes. Nada ofuscaria sua visão – ela buscava vingança!


Ela era feita de pura coragem, arrancada da matriz dos sonhos de Morphys. Seus olhos radiantes de aventura nada mais se pareciam do que espelhos turvos e cativos da dor que carregava dentro de si.


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Raquel Cantarelli

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