• Raquel Cantarelli

O Coveiro Maldito

Conto inspirado no Coveiro Maldito, Embaixador da Horror Expo Brasil.


Sim, eu adentrei aquele cemitério sem nome, mesmo sabendo que era amaldiçoado. Dizia-se que ali habitava “O Coveiro Maldito”.

Era madrugada e suas lápides pareciam flutuar sob a luz da lua, através de um feixe medonho e terrível. Mesmo a certa distância, vi quando, num movimento rápido, partes de cadáveres emergiram daquelas covas estranhamente dispostas.


O local era tão antigo que, confesso, me esforcei para encontrar algum vestígio ou sinal de que aquele cemitério sem nome pudesse ao menos ter sido construído por humanos. Havia algo insólito nas dimensões e na forma com que as lápides foram distribuídas. Não era comum em nenhum dos cemitérios que conhecera ao longo da vida.


O medo falava através do ar que eu respirava e uma aura invisível e funesta me repelia, me empurrava na direção de segredos antigos e sinistros que nenhum homem deveria ver, mas eu vi...


Remoto, nos arredores da cidade de Santo André, jaz o cemitério sem nome, envolto por ruínas e silêncio, ao menos até aquela hora da madrugada, do dia 31 de outubro. Seus jazigos quase ocultos pela terra de tempos imemoriais pareciam já descansar ali quando os primeiros habitantes da cidade tombaram sem vida.


Nada se parecia com alguma coisa que pudesse nomeá-lo e que ao menos lembrasse de longe que um dia foi vivo (figurativamente é claro), mas pude ouvir os sussurros ao redor de suas tumbas, advindos de algum lugar que, tenho certeza, não era de nenhum sonho ou pesadelo.


Tentei gritar, mas não tive força. Havia um coveiro à minha frente e ele cantava:


“Vivo está o que por minhas mãos,

descansa em paz neste chão,

rego teus corpos a cada madrugada

e florescem assim suas almas,

para sempre em minhas mãos...”


Eu deveria evitar os cemitérios, principalmente os sem nome, os cemitérios que são contados em histórias ao redor das fogueiras, mas ainda assim, o desafiei e penetrei no inexplorado deserto de meus pesadelos.


Agora, rogo a Deus que somente eu o tenha visto, e por isso espero que nenhum rosto carregue marcas tão terríveis de medo quanto o meu.


Talvez por isso, nenhum homem estremeça de forma tão intensa e horripilante quanto eu ao cruzar com um cemitério à noite.


Quando me deparei com ele, naquela calmaria fantasmagórica do início de um pesadelo, ele olhou para dentro de mim, pálido e gélido como os raios de uma lua de inverno em meio ao fogo do inferno, que era meu coração. E quando retribuí ao seu olhar, esqueci por alguns instantes o medo e me detive sem fôlego a esperar meu fim.


Esperei por incontáveis horas, mortas horas, até que ouvi gemidos advindos de todos os lados e mais e mais cadáveres se moviam entre as covas antigas e, ao que me parecia, incessantemente violadas.


Então, subitamente, sob a tênue luz do luar, vieram os cadáveres, numa espécie de dança mortal, festejando com o coveiro, sacolejando dentro de um ritual macabro e feroz. Era como se o coveiro representasse o próprio maestro dos infernos.


O poder vinha dele! A música e o tilintar de correntes saíam dele, o medo agora tinha nome, estava encarnado nele, bem à minha frente: o coveiro maldito!


Dentro e fora das covas daquele cemitério sem nome, fui obrigado a perambular, conduzido por um exército de caveiras e cadáveres putrefatos que de tempos em tempos me obrigavam a ler alguma inscrição que falasse a respeito de quem ou o que havia sido enterrado ali.


Meus ouvidos rangiam e minha imaginação fervilhava enquanto era conduzido por aquela dança de ossos e carne podre, ora lentamente, ora numa velocidade capaz de superar até mesmo a da própria luz, até chegar numa espécie de altar emudecido de pedra, onde o coveiro continuava a entoar seu canto:


“Vivo está o que por minhas mãos,

descansa em paz neste chão,

rego teus corpos a cada madrugada

e florescem assim suas almas,

para sempre em minhas mãos...”


Fui convidado a subir no pedestal e fiquei lado a lado com o coveiro. Enquanto esperava que ele terminasse seu canto macabro, pude olhar com mais atenção ao redor. Visto de cima, havia certas linhas e dimensões anormais nas ruínas do cemitério. Parecia tão simétrico, como se um engenheiro cuidadoso tivesse mudado as covas do lugar até que tomassem aquela forma: uma espécie de jardim, cheia de canteiros sombrios.


Quando a noite e a lua começavam a se despedir, senti um vento gélido que trouxe odores e um medo renovado. Já não queria permanecer ali, mas não tinha como fugir. Enquanto eu tentava correr, sem que meus pés tocassem o chão, o canto cessou e o coveiro finalmente se revelou inteiro. Ele deixou cair seu manto e ainda que a lua estivesse brilhando e os ossos dos cadáveres tilintassem uma espécie de batucada infernal, eu não conseguia mais respirar.


Acordei com o amanhecer, despertando de um caldeirão de pesadelos horríveis. Sonhei com todos os tipos de mulheres, com quem estive quando ainda estavam vivas. Foram tantas Camélias, Angélicas, Dálias e Hortênsias. Com elas, vi o sol escondendo suas últimas rajadas vermelhas atrás dos montes, enquanto elas, as mulheres de nomes inspirados nas flores, davam seu derradeiro suspiro e caíam sem vida, sendo acordadas já putrefatas pelo ritual do coveiro que entoava seu canto.


“Vivo está o que por minhas mãos,

descansa em paz neste chão,

rego teus corpos a cada madrugada

e florescem assim suas almas,

para sempre em minhas mãos...”


Minha rebeldia, ou minha total falta de noção de perigo, me levaram uma vez mais a me aventurar no interior daquele cemitério sem nome. Perambulei por entre tumbas e ruínas funestas que clamavam por água e inchavam sob a areia branca e os pedregulhos revoltos, como se alguém os estivesse revirando, dia após dia, incansavelmente.


Esperei horas e horas, quase esvaecendo, e percebi que o cemitério era realmente poderoso, embora seus túmulos estivessem à luz do sol, sucumbidos e ressequidos. Mas quando a noite chegava, e o coveiro entoava seu canto, enquanto regava um a um os túmulos dispostos a seu bel prazer e gosto nefasto, percebi traços de puro esplendor, de um lugar tão perdido no tempo que me demorei a compara-los.


Aquele lugar, quando a lua e o canto do coveiro se misturavam, fazia germinar outras mulheres: Floras, Magnólias, margaridas e Melissas. Todas dançando seus esqueletos e restos de carne e pele consumidos pelo tempo.


Subitamente cheguei ao pedestal, onde naquela segunda noite o coveiro trazia outras tantas mulheres para me fazer companhia: Petúnias, Rosas, Violetas, Yasmins e Virgíneas. Numa dança mais e mais frenética que a do primeiro dia, apenas para dois espectadores: ele e eu.


Tenho certeza que apenas nas terríveis viagens das drogas ou delírios febris, qualquer outro homem poderia experimentar uma visão como a que eu tive naquela noite. E estava só começando...


O manto do coveiro foi finalmente levado pelo vento frio da madrugada e pude ver com toda clareza um poço de hedionda assombração, que saía de seu corpo. Seus ossos estavam à mostra, brancos como as teclas de um piano. Enroscados a eles, fragmentos de vísceras e órgãos humanos, há muito sem vida, tentavam compor aquele corpo que, só eu sabia, ser capaz de cantar.


Tentar descrever o que vi do coveiro maldito é impossível. Era meio zumbi, meio monstro, contornos por vezes sugerindo algum tipo de demônio ou anjo da morte. Não trazia foice e sim uma enxada, velha e enferrujada como o próprio tempo daquele cemitério. Mas o mais estranho era seu canto, triste e delicado como um choro de criança. Não poderia ser comparado a nada.


Debati longamente se eram verdadeiras ou não aquelas dantescas visões, e quase cheguei a suspeitar de algum delírio febril, mas uma dor fria e pontiaguda me trouxe à realidade. O coveiro havia cravado um de seus ossos na minha barriga e tentava arrancá-lo para continuar sua investida fatal.


Mas parou quando meu sangue escorreu pelo chão e ele pôde sugá-lo, como raízes sedentas por água, naquele amanhecer.


Instantaneamente, ele ganhou formas e força, voltando à vida. À minha frente, figurava um homem cuja vestimenta novinha em folha, camisa xadrez e um macacão cor de terra, não deixava dúvida sobre sua identidade.


Seu ar era superior, como o de um homem que entendia por que viera ao mundo. Não era um coveiro, era um jardineiro!


Dentro da minha dor, eu já imaginava uma terrível cena final, que se revelava no olhar daquele homem parado à minha frente. Antes de cair no inconsciente, pude ler o crachá que ele ostentava em seu peito. Em letras garrafais, o nome do jardineiro estampado: FLORÊNCIO DE ASSIS.


Depois de suturada pelos médicos daquela cidade etérea, acordei em meio a gritos e indescritíveis contorções de dor que só pude suportar sob efeito de morfina e dos primeiros raios de sol que adentraram meu leito de hospital.


Ainda não tinha certeza de estar vivo, levei um tempo para lembrar-me do ocorrido. Naquele momento, ainda vinha à minha mente o entoar daquele canto, o canto do jardineiro, meu igual, na profissão e no nome.


Sim, também eu sou jardineiro e me chamo Florêncio. Mas, ao contrário daquele que pude ver e ouvir, eu cultivo flores em meus jardins, enquanto ele está aprisionado em um ritual ensurdecedor de cantos profanos, cujas reverberações se expandem até os infernos, regando e cultivando seu estranho jardim de almas.



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Raquel Cantarelli

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