• Raquel Cantarelli

O Pesadelo

Capítulo 01 do romance A HORA MAIS ESCURA

— Mãe, tive outro pesadelo essa madrugada. Tem alguma coisa errada e muito assustadora nele.


Marilia Lamberthi estava diante da janela da cozinha, mas seu olhar era vazio e o cigarro no meio de seus dedos já estava chegando ao fim, sem que ela o levasse à boca. Um amontoado de folhas do cajueiro e folhas de jornal velhos estavam espalhados pelo chão da cozinha, e Furacão, o Golden Retriever de estimação da casa, rolava no meio de tudo. Uma chaleira no fogão à esquerda de Marília apitava porque a água já secara e ela parecia não ouvir.


As vozes de algumas crianças já se podiam ouvir, conforme elas saíam de casa e corriam para a escola.


— Falou alguma coisa, Júlia? — Perguntou Marilia enquanto jogava o cigarro na pia e colocava a mão debaixo da torneira para aliviar a dor da queimadura.


Júlia repetiu:


— Falei que tive outro pesadelo essa madrugada. Tem alguma coisa errada e muito assustadora nele desta vez. Estou sangrando!


Enquanto enrolava um pano de prato ao redor da mão, Marilia se virou devagar para a filha, com o rosto franzido.


— Sangrando? Você acaba de virar uma mocinha, querida! Isso com certeza é um pesadelo! Toda mulher tem um desses uma vez por mês ao menos!


— Uma vez por mês? E os outros pesadelos, os que não sangram? Quanto tempo vão durar?


Marilia franzia ainda mais a testa enquanto apertava o pano de prato na mão dolorida. Ela caminhou até a mesa, segurou-se nela até que a tontura passasse, fitando a filha.


Ela estava pálida, com olheiras mais profundas do que o normal e segurava as roupas de cama manchadas de sangue nas mãos. A mãe tentava se acostumar com as histórias sobre pesadelos e agia como se fosse normal, mas dessa vez era diferente. Era como se Júlia tivesse derramado metade do sangue que tinha no corpo.


— O que você acha que tem de errado com o pesadelo de ontem, Júlia? — Perguntou num tom de voz que era pouco mais que um sussurro.


Júlia desviou os olhos da mãe, encolheu os ombros e disse, sussurrando:


— Não sei... só sei que é ruim... não aguento mais... e se a gente for embora daqui?


— Meu Deus, Júlia! Para onde iríamos? Já não conversamos mil vezes sobre isso? Não se preocupe, você vai se acostumar e então se sentirá melhor. Suba até o banheiro, daqui a pouco eu subo. Vou lhe ajudar com uma coisa que vai te deixar mais segura e confortável.


Júlia baixou o rosto e deixou o lençol no sexto de roupas sujas, depois voltou-se para a porta de saída da cozinha, enquanto soltava um suspiro lento e silencioso. Disse alguma coisa, mas foi baixo demais para que sua mãe ouvisse, enquanto subiam até o banheiro do segundo andar.


Era sempre assim, não adiantava tentar contar sobre o pesadelo. Sua mãe nunca acreditaria nela. Além do mais, o monstro a mataria se soubesse que ela tinha contado a alguém.


O pesadelo, ela pensou. Sempre começava logo depois das quatro e meia da madrugada... sempre foi assim. Naquele dia, porém, Júlia tinha certeza de que já estava acordada quando ele apareceu. Por isso estranhou que o monstro a dominasse. Ele não era só um pesadelo, era o “seu” pesadelo, e a acompanhava há muito, muito tempo. Aquele tipo de pesadelo com o monstro que a prendia e a amordaçava, e cujos gritos ninguém podia ouvir. Aquele pesadelo com as mãos presas à cabeceira, por mais que ela as tentasse soltar.

Aquele que sempre terminava com o monstro dizendo:


— Não grite! Ou eu mato você e sua mãe! — E assim voltava para a escuridão do quarto.

Julia sempre tentava conter o pesadelo e impedir que ele a seguisse no mundo real, e por isso ela apenas chorava, debaixo dos lençóis para não acordar sua mãe, que dormia no quarto ao lado.


Mas naquele dia era diferente. Como sempre fazia, na hora que o pesadelo ia embora, ela olhou para o relógio que sua mãe tinha colocado sobre a mesinha de cabeceira. Quatro horas e trinta e sete da madrugada. Tarde para tentar dormir e cedo demais para a escola que a esperava depois da hora mais escura, quando o alvorecer chegasse.


Júlia não podia contar a ninguém sobre o “seu” pesadelo, muito menos para sua mãe, claro. Não contou nem mesmo para a avó, que a visitava uma vez por semana. Só quem sabia do seu pesadelo era seu tio e seu cachorro, seu único e fiel amigo: Furacão. Também não contou para seus colegas da escola. De jeito nenhum.


O que acontecia no “seu” pesadelo era algo que ninguém precisava saber, dizia seu tio, que viera morar com ela e sua mãe quando seu pai tinha ido embora e nunca mais voltara.


Naquela manhã, porém, Júlia estava meio atordoada; ficou tonta depois que tentou se levantar. Algo estava acontecendo e ela não sabia o que era. Sentou-se na cama e resolveu esperar até que a tontura passasse. O pesadelo já tinha voltado para a escuridão e não tinha deixado a porta aberta como nas outras noites. Furacão arranhava a porta do lado de fora, querendo entrar, e ela teria que abrir logo para não acordar sua mãe.


Seu pesadelo sempre deixava a porta entreaberta e Furacão vinha ficar com ela até que o dia amanhecesse. Isso acontecia desde que ela tinha cinco anos de idade, quando ganhou o Furacão de seu pai, na véspera do dia em que ele se foi para nunca mais voltar.


Furacão entrou em seu quarto e não quis subir na cama. Havia algo estranho, algo diferente, algo... molhado...


Júlia sentiu algo entre as pernas e, tentando ultrapassar os lençóis que se enrolavam ao redor dela, sentiu com os dedos que estava realmente tocando em algo líquido. Teria que ir até o banheiro para ver o que era. Mas não podia fazer barulho, nem mesmo acender a luz. Sua mãe precisava dormir e descansar.


Seus pés então encostaram em algo no chão. Outra vez, algo molhado. Será que o monstro tinha saído de seu pesadelo e deixado marcas pelo seu quarto e pelo seu corpo? Não era possível! Ele havia prometido que só existia durante o sono, na hora mais escura, e que nunca viria depois do alvorecer.


Júlia sentiu uma pontada de medo, suas pernas tremiam, o estômago se revirava. Será que desta vez o monstro do seu pesadelo a havia seguido até o amanhecer?


Será que o monstro tinha dado um jeito de escapar do pesadelo e agora a atacaria também quando ela estivesse acordada?


— Não seja boba, Júlia. — Falou para si mesma. — Você já está bem grandinha para acreditar que pesadelos viram realidade.


E estava mesmo. Ela já tinha um metro e meio de altura e havia acabado de completar nove anos no mês anterior.


Acreditar que pesadelos viravam realidade era coisa de bebê. Ela acreditou nisso um dia, quando tinha cinco ou seis anos. No tempo em que ainda fazia xixi na cama. No tempo em que seu pai foi embora para sempre.


Sentindo os pés molhados, Júlia engoliu seco. Fazia um calor fora do normal em maio e as janelas de seu quarto poderiam ter ficado abertas. Se tivesse chovido à noite, o piso molhado poderia ser da água da chuva. Mas e suas pernas? Teria uma goteira no telhado?

Talvez...


— Júlia!


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Raquel Cantarelli

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