• Raquel Cantarelli

OLHOS VERDES


Espero que se impressione com a história que tem em suas mãos agora. Sei que provavelmente, perderá algumas noites de sono pensando no que vou lhe contar aqui. Eu seria louca se esperasse menos do que pavor, vindo de você. A menos é claro que seja você também, um louco, um psicopata atroz e perverso. Meu igual.


Confesso que por vezes, quando me recordo porque cheguei até aqui, meus próprios sentidos se negam a acreditar no que fui capaz de fazer.


Sei que minha morte está próxima. É o que meu corpo em frangalhos me dá em maior certeza. Sei que não estou louca, não agora. Já estive e é por isso que vou contar o que fiz, para tentar aliviar minha culpa, minha tão grande culpa. Não peço que tenha misericórdia de minha alma, eu mesma não tenho mais. E se preferir, ainda é tempo de fugir daqui e fechar estas páginas.


Bem, já que ficou, apenas vou lhe contar, de forma clara e na sequencia dos fatos como eles realmente aconteceram, não pretendo fazer comentários a cerca de meus atos, caberá a voce, unicamente julgar. Só posso lhe dizer, que hoje, mesmo depois de passados cinco anos atrás das grades, esses fatos me aterrorizam e me torturam, dia e noite.


Desde menina, me tornei cobiçada aos olhos dos meninos. Na juventude, não foi diferente, os rapazes me olhavam como se olha para um pedaço de carne suculenta e isso me enojava. Aos 14 anos, fui trancada no porão da casa de meu tio e só saí de lá, depois de deixar toda a minha pureza e meu nojo, em forma de sangue e vômito, espalhados pelo chão.


Diferente do que seria o normal, para uma garota que é molestada, me tornei forte e aparentemente dócil. Conseguia esconder por traz de uma faceta de menina pura e feliz, o monstro que eu cultivava e crescia dentro de mim. Um monstro cada vez mais forte, mais imaginativo e feito de pura sede de vingança.


Quando meu tio morreu, meus avós foram morar naquela casa. Naquela casa que era o cenário de todos os meus pesadelos e depois de um tempo, já que era obrigada a visita-los com frequência, perdi o medo e comecei a frequentar o porão, como a uma espécie de alimento para meus desejos de vingança. Ali naquele porão, visitei lugares mais escuros do que aquele lugar, visitei os porões da minha alma, onde os meus piores monstros habitavam e eu os deixei sair.


Aos poucos eu os alimentei, os cuidei, os fiz crescer e quando já não cabiam naquele porão, eu os trouxe para fora, disfarçados na pele de uma menina moça fogosa e cheia de volúpia.

Passei a gostar, especialmente, de homens que me “comiam com os olhos”. Eu os seduzia com roupas e gestos provocantes e os levava para o porão da casa de meus avós.


Lá era o lugar perfeito para colocar em prática, toda minha sede de vingança e me alimentar daqueles corpos que representavam toda a minha angústia e dor.


Meu avô tinha um grande poço abandonado, no porão e era lá que eu jogava seus corpos. Um a um, e depois, um saco de cimento e um pouco de água, preparavam o espaço, destinado ao próximo infeliz.


Esta era a minha principal fonte de prazer. Até que um dia, julgo que o próprio demônio quis medir forças ou brincar comigo. Conheci Eduardo. A princípio ele não era muito diferente dos outros homens que eu havia conhecido e levado literalmente para o fundo do poço. Ele também tinha aquele olhar de extremo desejo e luxúria. Talvez exceto pelos gestos carinhosos e o som da voz que pareciam brincar com meus tímpanos e é claro seus lindos olhos verdes.


Talvez os que já se apaixonaram por alguém, não preciso me dar ao trabalho de explicar a natureza e a intensidade do que senti por aquele homem. Havia algo de desinteressado nele. Parecia capaz de qualquer sacrifício por mim e isso me tocou. Eu queria possuí-lo de verdade, como a um amante e me entreguei àqueles olhos verdes sedutores.


Ele tocou meu corpo e meu coração de um jeito como jamais imaginei que fosse capaz e comecei a me sentir frágil, diante da indubitável fidelidade a um homem apenas. Mas me casei com ele, mesmo assim. Por um bom tempo, meu amor por ele, não desperdiçava as oportunidades de me banquetear com seu corpo e toda luxúria que pude imaginar e ele também se mostrou com as mesmas preferências. Éramos um casal perfeito.


Nosso amor e luxúria perduraram assim, por vários anos, durante os quais, passei a lutar contra o meu temperamento, cada vez mais sedento de voltar a antiga prática de matar. Fui me tornando a cada dia, mais intolerável, mais indiferente aos sentimentos de Eduardo e não me importava em fazê-lo sofrer. Na verdade, isso passou a me divertir. Por fim, comecei a trata-lo com certa violência e descaso, o que me excitava cada vez mais.


Chegou a um ponto em que não aguentei mais e voltei a “caça”. Retomei meus antigos hábitos de seduzir, levar para o porão da casa de meus avós, tortura-los e vê-los sangrar até a morte. O mal, corria solto novamente em minhas veias e eu estava feliz e radiante com isso.


Em duas ou três ocasiões a polícia bateu em minha porta, investigando sobre o desaparecimento de minhas vítimas. Revistavam minha casa, procuravam indícios no meu carro e não encontrando nada, deixavam-me em paz.


Por fim, fui ficando velha e não conseguia seduzir homens com a facilidade de antes. Fiquei mais violenta e meu humor estava me afetando a ponto de infringir tortura a mim mesma, eu queria sentir na carne, a dor da raiva e frustração que sentia.


Certa noite, ao voltar para casa, frustrada e enfurecida por mais uma caçada fracassada, encontrei Eduardo, me esperando na varanda. Tive a impressão de que ele tentava evitar minha presença e queria me impedir de entrar. Agarrei-o pelo braço, ele se assustou e ante a minha violência, se defendeu pela primeira vez e me acertou um golpe no rosto, derrubando-me ao chão.


Eu não reagi como o esperado. Me humilhei e pedi perdão, jurando que o amava. Ele acreditou. Eu o havia seduzido. Uma fúria demoníaca apoderou-se de mim e me esforcei para controla-la até conseguir fazer com que ele fosse até a casa de meus avós, com a desculpa de que teria que trancar a porta do porão que esquecera aberta. Ele foi comigo, com a promessa de que o recompensaria depois.


Apanhei-o de surpresa, e ele, assustado diante da minha violência, me mordeu a mão, enquanto eu o amarrava. Então uma fúria demoníaca se apoderou de mim. Como nunca antes. Já não tinha controle sobre o que fazia. Parecia que o que restava de minha alma, tinha finalmente abandonado meu corpo, e toda minha perversidade veio à tona, causada pela fúria e pelo ódio que guardei por tanto tempo. Por fim, peguei um facão velho e enferrujado e cortei a garganta de Eduardo, como o último golpe de misericórdia. Não satisfeita com isso, antes de jogá-lo no poço, arranquei seus olhos e guardei num frasco com formol como lembrança.


Foi a melhor sensação do mundo! Eu podia finalmente respirar novamente, como uma mulher livre. O monstro poderia sair de vez para fora de meu corpo. Minha felicidade era infinita! A culpa não me inquietava. Foram feitas mais algumas investigações, respondi a todas as perguntas com o mesmo poder de sedução que sempre me salvara e depois de mais uma vistoria completa em minha casa, eles foram embora. Minha felicidade futura estava garantida.


Você pode não acreditar, mas eu senti remorso e vergonha pelas atrocidades que cometi com Eduardo, mas não passou de um sentimento superficial e frio, já que minha alma a muito tempo não habitava em mim.


Continuei mergulhando em excessos e me afogando nas drogas e bebidas, até que uma noite, fui acordada pelos vizinhos pelo grito de “fogo”! Meu quarto estava em chamas e sei que foram os meus cigarros que provocaram o incêndio. Consegui sair ilesa, enquanto toda minha casa ardia em chamas. E tive que me refugiar na casa de meus avós, que generosamente me cederam o porão para morar.


No dia seguinte ao incêndio, fui até as ruínas de minha casa. Todas as paredes estavam no chão, não havia uma única peça inteira, nenhuma janela, vidro, nada. Até que meus olhos avistaram em meio aquele cenário de horror, um vidro intacto. Me aproximei e com espanto, percebi que se tratava do meu “suvenir”. Os olhos de Eduardo estavam intactos e pareciam mais verdes do que nunca. Olhavam diretamente para mim. Ao invés de encarar aquela imagem com horror e repugnância, eu fiquei extremamente feliz. havia salvo o que me restava da lembrança do único amor que tive. Imediatamente os levei para o meu novo lar, o porão da casa de meus avós.


Na primeira noite em que dormi ali, cujo local fora por mim, profanamente utilizado... uma besta-fera de olhos verdes me apareceu durante o sono. Acordei no meio da noite com o rosto em chamas, ardendo pelas bofetadas que levei de alguma força estranha. Acendi as luzes e olhei-me no espelho. Haviam marcas de dedos, como se alguém tivesse me esbofeteado até me acordar.


Na segunda noite, não dormi, fiquei acordada esperando meu algoz. Queria encará-lo de frente e mostrar a ele a besta-fera que habitava em mim... uma besta-fera, feito a imagem e semelhança do demônio que a muito me possuía. Ele veio! Mas eu não conseguia enxerga-lo por completo. Tudo o que eu conseguia ver, aqui e ali eram grandes olhos verdes, andando ao meu redor. Podia sentir seu hálito quente sobre meu rosto, o peso de suas bofetadas e todo o seu peso pressionando meu coração até me fazer gritar de indescritível terror.


No terceiro dia, assim que o pesadelo começou, uma caravana da polícia chegou. Meus avós haviam chamado, alertados por meus gritos de horror da noite anterior. Mas apesar das marcas por todo meu corpo, estava segura de que não descobririam nada sobre minhas vítimas. Não haveria como descobrirem em que lugar eu ocultara os seus cadáveres.

Os policiais obrigaram-me a acompanha-los durante a busca. Fizeram uma varredura completa no porão e nenhum canto ficou para trás. E nada encontraram. Por fim, depois de meia dúzia de tentativas frustradas, pareciam estar finalmente satisfeitos e tudo indicava que desistiriam de procurar e me deixariam em paz. Meu coração afoito, batia descompassado e me empenhei em controla-lo para demonstrar calma e paciência, além das minhas forças. Eu era a imagem da inocência e me orgulhei de minha capacidade de interpretação.


Caminhei calmamente pelo porão, com os braços cruzados e parecia que a polícia estava totalmente satisfeita. Suspirei aliviada. Um suspiro contido para não deixar transparecer meu júbilo sobre aquele bando de trouxas. Então, quando os policiais já estavam de saída, eu os acompanhei com os olhos, atentamente e o silêncio tomou conta do lugar como se não houvesse ninguém caminhando por ali. Todo o som do mundo desapareceu por completo, os policiais conversavam entre eles, sem emitir nenhum som, a chuva começou a cair lá fora, mas não era possível ouvi-la. Silêncio total, silencio mortal, silêncio sobrenatural, silêncio vindo diretamente do inferno. Até que finalmente...


Vozes e gritos abafados vieram de algum lugar... como se estivessem sendo espremidos ou comprimidos por uma gigantesca placa de concreto. Um som contínuo, anormal e inumano, vindo diretamente do fundo do poço abandonado.


— Deus me livre e guarde! — gritou um dos policiais. — Que merda é essa?


Nesse momento, o som voltava, mas se confundia com o eco e com as batidas de mãos, como se arranhassem uma parede de concreto. E de dentro de meu pior pesadelo, veio a resposta para a pergunta do policial:


— Sou eu, Roberto! Estou aqui no poço, não consigo enxergar, tirem-me daqui!


Caí em desesperada agonia, uivei e gritei ao mesmo tempo, um pouco levada pelo horror da situação e um pouco pelo medo que se apoderou de mim, pois somente eu sabia que não poderia ser Roberto. Eu mesma o tinha matado. Não havia como ser ele.


Por algum tempo, os policiais permaneceram parados, imobilizados pelo terror. Em seguida, seis homens fortes e determinados, encontraram o poço e começaram a escavá-lo até chegar aos blocos de concreto, e um a um, os corpos de minhas vítimas foram sendo reveladas. Por incrível que possa parecer, em bom estado de conservação, o que tenho certeza, contribuiu para a identificação. Um a um, os corpos foram sendo colocados em sacos e deixados do lado de fora do porão, maltratados, mas intactos, com exceção de Roberto, que lhe faltavam os olhos.


Seu corpo, era o que aparentava o melhor estado, já que havia sido minha derradeira vítima. O sangue lhe escorria pelo rosto e estava totalmente coagulado, onde eu lhe havia arrancado os olhos. Repentinamente, o cadáver se levantou, caminhou até a mesa no meio do porão, pegou uma lata, onde se lia açúcar e remexendo em seu conteúdo, retirou um vidro. O vidro que continha meu suvenir. Seus olhos verdes conservados perfeitamente no formol. Ele os pegou e recolocou nas órbitas, sobre o olhar paralisado dos policiais.


Eu não pude comprovar minha loucura. Fui condenada e tenho que cumprir minha pena. Os policiais, estes sim, receberam o diagnóstico de “perturbados mentalmente” e foram afastados da polícia. Ninguém acreditou nas suas histórias. Espero que você, que está lendo esta carta, acredite. Já que estou aqui, na companhia de Roberto, até o fim dos tempos e além...


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Raquel Cantarelli

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