• Raquel Cantarelli

Sementes do Roncador

Conto do livro Folhas do Mal

Em meus pesadelos, assisti a uma cidade inteira tombar, afundando nas águas vermelhas do Rio das Mortes. Ouvia os gritos desesperados daqueles pobres coitados e os assistia cair um a um a meus pés, cada vez mais sedenta de sangue. Vi o fogo que saía através do Portal do Roncador e que queimava mais que mil sóis. Um gosto pútrido entranhava minhas narinas enquanto eu rasgava em tiras aqueles corpos ainda tremeluzentes. Saltei para fora do meu pesadelo, vindo diretamente do inferno e...


Acordei no escuro total de meu quarto, tão pequeno que mais parecia a estufa de nosso laboratório de botânica. Mas eu preferi dormir ali para não ter que dividir o mesmo aposento com meus colegas de alojamento, na UNIX, universidade de Nova Xavantina, no Coração do Brasil.


Mas o pesadelo foi tão medonho que ainda o retinha em meu subconsciente, como se a raiz de todo mal do mundo estivesse brotando em minhas mãos e, de algum modo, eu sabia que não era só mais um pesadelo, pois ele vinha se repetindo ao longo de meses e tudo começou na primeira noite depois de voltarmos de nossa incursão à Serra do Roncador para coletar trilobitas e plantas na região, rica em jazigos fossilíferos e inscrições rupestres de interesse mundial.


Não fui mais a mesma depois daquele dia, alguma coisa naquele lugar despertou uma visão imaterial à minha frente, tão logo atravessamos o caminho estreito entre as rochas. Guiados pelo guardião do local, adentrei num universo completamente inconcebível não só para mim, mas creio eu, para qualquer mortal. Vi uma cidade inteira surgir diante de mim: era a mesma cidade de Nova Xavantina, mas não no tempo atual.


Não existia energia elétrica, nem a ponte sobre o Rio das Mortes, então logo imaginei que aquela visão vinha de um passado distante. As pessoas circulavam sem tocarem os pés no chão, vestidas de branco, e seus olhos alóctones não pareciam detectar nossa presença.

Olhei para todos os meus colegas de excursão e nenhum deles parecia ver o que eu via. Mas quando prestei mais atenção, meu professor de geologia, Roberto Navarro, estava com uma expressão tão estupefata quanto a minha e logo deduzi que ele via o mesmo que eu. Me aproximei dele e sequer senti meus lábios se mexerem quando ouvi o som que saía de minha boca.


— Professor, que cidade é essa? De onde vem essa visão?


Ele não me respondeu, mas eu sabia que ele também estava tendo a mesma visão que eu. Pude sentir em todo meu corpo a pressão quente que tentava me desprender do chão, meu corpo parecia pesar uma tonelada e minhas pernas não se moviam apesar de todo meu esforço.


— Professor, o que isso significa? Que lugar era aquele? Eu sei que você também viu! Eu sei que não foi um sonho e nem mesmo que estamos ficando loucos.


Ele continuava calado e permanecemos deitados lado a lado no escuro até o dia amanhecer, pois só assim não haveria perigo de eu dormir e ser arrastado para aquele lugar outra vez. Eu nunca tinha sido uma grande admiradora de estrelas, mas naquela noite elas foram nosso único consolo.


— Helena, responda, você também a viu?


O vento suave daquele amanhecer trouxe consigo o cheiro de alguma flor diferente. Eu achava que já conhecia todas as plantas do cerrado, mas aquele cheiro não consegui identificar; logo o som do vento foi ficando mais forte e o “ronco” fez jus ao nome que batizou aquela serra. Era ensurdecedor, mas diferente dos outros dias, eu pude ouvir perfeitamente que, misturados ao som do vento, também ficavam audíveis o choro e os gritos desesperados de crianças em suas derradeiras agonias.


— Sim professor, eu também vi e ouvi.


— Ouviu? Não ouvi nada, o que você ouviu?


— O choro e os gritos das crianças, não está ouvindo, professor?


— Não, só vi a cidade, mais nada. Acho melhor guardarmos isso só entre nós por enquanto ou vão nos chamar de loucos.


Na noite seguinte e na posterior em que passamos ali, o professor continuava a repetir as mesmas coisas e quando relembro daquelas visões, me pergunto por quanto tempo ainda teríamos passado sem ter visto nada daquilo. Seríamos os primeiros?


Será que estaríamos em melhor situação se não tivéssemos buscado respostas para o que vimos ali? Teria feito alguma diferença? Sinceramente, temo que não. E as estrelas que me fizeram companhia naquelas três noites aos pés da Serra do Roncador, hoje são minhas melhores e únicas companhias, pois nem mesmo a lua quer se juntar a mim.


Quanto ao meu professor, vou lhe contar por que ele não está mais me fazendo companhia: apesar de ser muito falante, ele foi silenciado para sempre, já as estrelas, essas nunca dizem palavra alguma...


Aqueles gritos desesperados ressoaram em meus ouvidos já torturados noite após noite. Já não aguentava mais e eu sabia que não poderiam vir de nenhum pesadelo; alguém clamava por ajuda. Por que, Deus, eu tive que ouvi-las?


Hoje, peço que os céus perdoem a tolice e a morbidez que levaram a mim e ao meu querido professor a um destino tão monstruoso. Hoje já não sei mais se foi nossa natural curiosidade por desvendar os mistérios da afamada região da Serra do Roncador ou se foi o mal que habita nos corações de homens e mulheres, sedentos pelo ordinário e pela aventura, que nos levaram para esse triste fim.


No início, o professor Roberto e eu nos tornamos inseparáveis, seguimos entusiasticamente cada nova descoberta e nos enredamos noites seguidas no estudo de enigmas e símbolos arcanos que povoavam o imaginário de simbologistas e amantes do exotérico em todo o mundo, até nos depararmos com os relatos deixados por Percy Fawcett, um sertanista que era coronel e pertencia à guarda real inglesa, altamente conceituado e que, no ano de 1925, veio ao Brasil para liderar uma expedição que virou lenda e atraiu a atenção do mundo todo para as supostas cidades perdidas na Amazônia. Os últimos relatos do sertanista tornaram possível supor que seu desaparecimento se deu na mesma Serra do Roncador, enquanto buscava o portal de entrada para a cidade perdida de Atlântida.


A essa altura, já estávamos eufóricos e completamente deslumbrados com nossa possível “descoberta”, mas por que somente nós dois vimos a cidade? E por que somente eu ouvi o grito de socorro das crianças?


Continuamos com nossas pesquisas e encontramos relatos que deram conta que em 29 de maio de 1925, Fawcett mandou uma última mensagem para sua esposa, indicando que eles estavam prontos para entrar em território inexplorado. Esta teria sido a última notícia oficial que se ouviria da expedição. No ano de 1925, o explorador inglês Percy Harrison Fawcett teria desaparecido quando encontrou o portal de entrada à cidade subterrânea de Erks, na Serra do Roncador, junto com seu filho Jack e o amigo Raleigh Rimel.


Assim que tomamos conhecimento de tudo isso em nossas mãos, já não achávamos se tratar de pura invenção ou algo contado por exploradores e nativos da região: tínhamos certeza de que ele havia encontrado a entrada para a cidade intra-terrena de Erks, e nós também queríamos encontrá-la.


Fomos nos tornando, o professor Roberto e eu, mais reclusos à medida em que aumentavam gradualmente nossas excursões e nossas penetrações cada vez mais profundas nas cavernas da Serra do Roncador. O Professor e eu logo ficamos exauridos de emoções, até que, finalmente, movidos pelos estímulos das visões e dos gritos que clamavam por socorro, chegamos até uma parede de barro endurecida, com diversas marcas de pequenas pegadas moldadas ali. Eram centenas delas, senão milhares. E os gritos das crianças ficaram incessantes e muito mais torturantes. Eu estava à beira da exaustão.


Foi por essa pavorosa necessidade emocional de me sentir útil, uma única vez na vida, que comecei a cavar e, enfim, de meu exaustivo trabalho ao longo de dois meses, fui conduzida por um caminho sem volta, um caminho detestável do qual, mesmo em meu imenso pavor, falo envergonhada: eu queria saber quem era o algoz de crianças indefesas e este foi o meu pior erro.


“Foi um dia triunfal! Depois de tanto tempo, chegamos a uma câmara ritualística, um tipo de museu inominável que estava à nossa espera”, dentro de uma grande câmara de pedra, a qual habitamos por algumas horas em silêncio, apenas eu e o professor Roberto. Bebemos água e nos recostamos na parede, até que aconteceu...


Nosso recém-descoberto museu era um lugar profano e impensável, onde com o gosto satânico misturado à nossa virtuosa neurose, presenciamos um universo de terror. Aquele era um lugar secreto até mesmo para os habitantes do inferno, o lugar onde os filhos das pobres mulheres da cidade que tinham seus bebês raptados durante a noite, eram sacrificados.


Durante o sacrilégio, as crianças eram colocadas sobre o altar de pedra no centro da câmara e sua cabeça e seus membros eram arrancados e consumidos pelos senhores do lugar. Apenas seus pés eram poupados e pregados nas paredes de barro.


Mas que maligna fatalidade nos seduzira e nos guiara até aquele terrível cemitério nas entranhas da Serra do Roncador? Acredito que tenha sido o legendário sertanista Fawcett e as histórias contadas sobre ele. Consigo imaginar a cena do nobre inglês e me pergunto se também ele descobriu aquele lugar.

Nos preparávamos para fugir o mais depressa possível dali, quando o altar de pedra se partiu ao meio. Lembro-me de como nos voltamos assustados para o centro da câmara e vimos o momento em que um estranho objeto saltou para fora da pedra e veio rolando até nossos pés. O professor Roberto se adiantou e pegou o amuleto; era uma espécie de moeda antiga, em ouro e cravejado de pedras de jade. No momento em que um estranho guinchar gutural parecia ter saído dele.


Logo que contemplei aquele amuleto, eu sabia que deveria possuí-lo e passei a desejá-lo mais do que o próprio ar que respirava. Tinha que fazer alguma coisa para consegui-lo. Ele seria meu a qualquer custo.


O professor, a cada dia que passava, ficava mais estranho, mais distante e em algumas noites comecei a perceber que ele saía para longos passeios noturnos e voltava somente quando o sol já estava nascendo. Decidi que deveria segui-lo.


O horror me contemplou logo na primeira esquina de uma rua quase morta, no bairro mais afastado da cidade: por alguma força sobrenatural, o professor conseguiu flutuar e eu o vi arrancando algumas telhas de um casebre e adentrar em total escuridão. Eu queria chamar por ele, mas alguma coisa me impediu, então logo em seguida o vi surgir sobre o telhado, carregando um embrulho de panos no colo. Demorei para entender o fruto de seu roubo. E só quando vi que ele tomava o rumo da Serra do Roncador, meu inconsciente processou a imagem na câmara de sacrilégio com o embrulho nas mãos do professor Roberto. Ele estava levando uma criança para o sacrifício dos demônios. Eu tinha que impedi-lo.


Era tarde demais, ele se movia sem tocar os pés no chão e eu tive que correr como jamais fizera em toda minha vida. Quando cheguei no portal do Roncador, o vento forte tentava me impedir de seguir caminho, e quando cheguei até a câmara, o professor já era uma abominação, o que restava dele eram apenas algumas tiras de seu corpo e restos de fios de cabelo que escorriam sobre aquela criatura hedionda e, em seu lugar, tentáculos pegajosos e escamosos que não se pareciam com nenhuma das criaturas que vínhamos estudando há anos. Agora, me olhava com órbitas tão reluzentes como o próprio fogo do inferno.


O choro das crianças se tornou uma espécie de zombaria e aos poucos foi ficando tão perverso que me entreguei ao destino inevitável. Caí de joelhos no mesmo instante em que aquela abominação desaparecia na minha frente, sendo arrastado para um lugar que agora sei que espera por mim.


Saí dali e senti que meu bolso continha alguma coisa que antes não estava lá. Toquei-o e, sem mesmo tirá-lo para fora, soube que era o amuleto.


Estou escrevendo este relato antes que a noite chegue e eu tenha que cumprir minha missão. É minha tentativa desesperada de impedir que mais crianças sejam sacrificadas nas entranhas da Serra do Roncador... agora, conforme o céu vai ficando escuro e dá lugar às estrelas, sinto que já não estou tocando o chão. Devo buscar, para o sacrifício do inominado e inominável, mais uma semente do mal...



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Raquel Cantarelli

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